quinta-feira, 17 de maio de 2012

Tigre num país de PIGS

Quem trabalha ganha mal, quem não encontra emprego chora a falta de oportunidades, quem quer vender não encontra quem compre, quem governa chora a falta de compreensão, quem se indigna chora a falta de companhia, quem precisa de comprar tem contas vencidas, quem quer competir não tem patrocínios, quem tem patrocínios tem azar nos heats, quem faz bodyboard chora o inexistente mercado, quem faz surf queixa-se da falta de ondas. Todos temos uma desculpa.
Mas hoje nem é da nossa habitual choradeira de que falo. Não quero saber da falta da patrocínios, da inexistência de visibilidade, da falta de portugueses entre a elite do bodyboard ou do aparente boicote que continuamos a sofrer em alguns meios de comunicação – já reparam que há um programa na Fuel TV, made in Portugal, que anuncia notícias de bicicletas e snowboard, mas que nada diz de Bodyboard? – hoje o assunto é surf. Surf do nosso.

Não perco uma etapa do WCT. Quem gosta de ondas, gosta de surf, quem gosta de desporto, gosta de ver grandes atletas e eu nem nunca escondi que me é perfeitamente indiferente se é o Jeff Hubbard ou o Jordy Smith quem voa por cima de uma bolha. Naturalmente que não passo madrugadas acordado para ver um Parkinson VS John John Florence, mas quase … e a possibilidade de ver os heats em directo, full HD e com comentadores que (realmente) sabem o que dizem e que não perdem tempo com “yewws” na Fuel TV já me roubou algumas noites.

Assumidamente sem informação privilegiada, diria que o nosso mundial está em risco. A lógica é tão simples como pura: desde o ano passado, o investimento tem de ter disparado para atletas e organizadores e continuo sem ver onde pode estar a conseguir grande retorno. Os sites internacionais continuam vagarosos, as televisões continuam por conquistar e as nossas marcas continuam sem arcaboiço para fazer a diferença. Sim, convém lembrar que a ASP mais não é que um concílio para gerir os Big Four. E não falo do Slater, do Parko, do Fanning ou do Taj Burrow, mas sim da O’neill, da Billabong, da Rip Curl e da Quiksilver. Não temos disso entre nós, as nossas marcas são comparáveis à Sanjo e nem todas juntas chegam perto da dimensão da quarta maior marca desportiva do Mundo – a do “careca”.

Da preparação dos atletas, à construção das marcas, aos media, há lições, muitas, a retirar do surf. E esta semana, apercebi-me de uma do mais insuspeito dos ‘professores’, o Saca. Estou longe de ser fã, nunca desaproveito uma eliminação precoce para apertar com os amigos ‘quilhas’ e mesmo quando ganha prefiro dizer que foi sorte. Desta vez não é possível. Surfando obviamente menos e em ondas pouco acima de miseráveis, derrotou o Kai Otton, o Owen Wright, o Jordy Smith e só perdeu com a última onda daquele que é um dos meus surfistas favoritos, o Parko. Há uma lição a tirar daqui.

Às vezes, não é preciso ser o que mais autocolantes tem na prancha, ser o mais visível ou o mais talentoso. Às vezes, os adversários podem ser grandes e feios, ser capazes dos mais inacreditáveis aéreos ou dos tubos mais improváveis (atenção ao tubo do parko, salvo erro, na final). Às vezes, a garra pode mesmo fazer a diferença e essa tem sido o segredo para que o Saca se esteja a preparar para quarta temporada entre os melhores surfistas do Mundo.

Uma lição para boogies, para os mentores da IBA, para políticos e para nós, os que ganhamos mal, que estamos desempregados, que não conseguimos trocar de prancha ou alinhar na surf trip de sonho. Às vezes a garra pode mesmo fazer a diferença. Deve ser por isso que o Saca é “tigre” num país de PIGS.





Bons tubos

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